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Prólogo

As gotas caem e se abrem em círculos lentos. Segredos encontrando espaço. Lavanda, bergamota, rosa. Uma de sândalo, para finalizar e lembrar de onde vim. A água na temperatura certa. O corpo não precisa mais de anestesia. Já não tenho medo de sentir. A gata dorme no tapete ao lado da banheira. Ou finge. O mistério das criaturas felinas. Ou de qualquer ser que decidiu ficar sem que ninguém pedisse.

Tempos atrás, teria rido disso. Óleos essenciais. Banhos rituais. Uma mulher perto dos trinta contando gotas numa banheira como se fosse oração. Coisa de revista feminina barata, daquelas que Martin jogava fora antes que eu pudesse ler. Martin. O nome passa e não rasga mais nada. Já foi lâmina, agora é só uma palavra com seis letras e um ponto final.


Entro na banheira. A água sobe pelo corpo, passa os tornozelos, joelhos, quadris, costelas, e cada centímetro que cobre é um centímetro que se destranca. O vapor carrega os aromas misturados no ar. Fecho os olhos. A lavanda chega primeiro. Sempre chega primeiro. Cheira a mãos na terra e sol de verão e uma avó que sabia coisas que ninguém ensina. Depois a bergamota, cítrica e insistente, me obrigou a olhar para tudo que eu fingia não ver. Ylang-ylang, indecente, me devolveu um corpo que eu tinha desligado. E rosa. Que me ensinou que abrir o peito não é o mesmo que abrir a ferida. Abigail ergue uma orelha. Me olha. Volta a cochilar.


— Eu sei. Você sabia antes de mim.


Um ronronado manso. Ou talvez seja só o encanamento. Neste apartamento, é difícil saber.


Três gotas. Era só isso. Mas quando tudo desmorona, até uma gota é uma escolha. Afundo até o queixo com a água me embalando. O teto do banheiro tem uma mancha de umidade no canto esquerdo que parece um mapa de um lugar que não existe. Já não me incomoda. Não me incomodam muitas coisas que antes eram emergências. O apartamento pequeno, a carreira que virou outra, a mãe que ainda não entende mas veio, o alecrim no parapeito da janela, vivo apesar de mim.


Helena diria que sândalo é pra isso: enraizar, segurando os pés no chão quando a memória puxa pra cima. Helena dizia muitas coisas, algumas só entendi depois.


A água vai esfriando. Abigail se espreguiça no tapete preparando a ida para o sofá. Logo vou sair, mas ainda não.

*

Tudo começou num dia em que eu só queria sumir.

A banheira do apto 8 -  CAPA.jpg

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© 2025 Monica March

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